1 de DEZEMBRO
Era uma tarde como outra qualquer se não fosse o fato deu estar prestes há fazer 15 anos e passar quase todos os dias no corredor de um hospital. Trocava turnos com minha mãe, pois, sentimental assim como eu, ela se encontrava bem abalada com tudo aquilo. E ali no hospital do fundão, no Rio de Janeiro no ano de 1993, meu pai, Brigadeiro da Aeronáutica estava internado.
Meu pai tinha uma vida cheia de historias, tipo aqueles heróis de filmes que passam tudo, vivem tudo e sobrevivem a tudo. Um misto de Johnny Cash com Tommy Lee Jones. Estava eu ali naquele lugar, aguardando notícias, se sabiam finalmente o que ele tinha.
Tudo começou no dia dos pais de 1992, fomos passar o dia em Teresópolis e Petrópolis. Adorava qualquer coisa ligada a Monarquia graças a ele, na verdade eu ia pra andar de pantufa no museu, mas prefiro acreditar que ele achava que adorava Dom Pedro tanto quando ele. Depois fomos ao Quitandinha, lembro de no fim da tarde ver as tulipas que tinham perto da estrada e deitada na parte de trás de um corcel II luxo que cabia uma criança de 13 anos como eu, ficava olhando as estrelas do céu enquanto o “Coral do Exército Russo” cantava Kalinka na fita cassete do carro.
Então veio o impacto, nosso carro bateu no carro da frente e logo atrás vinha um ônibus, que para o meu olhar de 13 anos era GIGANTESCO. Eu fui arremessada da parte de trás do carro até o vidro da frente, meu pai quase furou o vidro do carro. Quando o ônibus voltou, ele teve o impulso de tirar nosso carro empurrando, sabe Deus como, mas deu um jeito de nos colocar um local seguro. Estávamos bem, fora o fato de ele ter perdido muito sangue e precisar de transfusão e foi ai que tudo começou…
Num ano em que a AIDS estava ficando conhecida na TV, mas não tínhamos internet, por isso informações sobre ela demoravam a aparecer. Num ano que ela não era tão falada nem comentada na categoria “Acrescentando informações”, mas era taxada como doença de homossexuais e drogados mundo a fora, meu pai aquela noite, no dia dos pais, se tornou soro positivo.
Meses passaram e do nada aquele cara saudável foi ficando fraco, magro, extremamente doente. E o herói que me acompanhou a vida inteira virou a pessoa mais frágil do mundo diante dos meus olhos. Fiz 14 anos e não teve festa, não tinha como. Os remédios e internações eram caros mesmo bancados uma boa parte pela Aeronáutica. Certos exames o plano não cobria e tínhamos que pagar. Tive que sair da escola, estava acabando a 8ª serie, meus amigos que viviam pra festas e namoradas mal sabiam a angustia que eu passava todo dia em casa. Acordava com meu pai berrando pela casa, sangrando, levando tombos e eu não conseguia dormir com os pedidos diários de pelo amor de Deus me deixem morrer em paz, justo ele que se alistou voluntariamente pra ir à guerra. Cada semana uma gripe diferente, cabelos caindo, estava praticamente só osso e pele. Nas últimas semanas de vida, um tombo na escada do hospital resultou no seu supercílio aberto jorrando sangue pra todo lado e meu braço rasgado pelo corrimão da escada. Talvez selassem meu destino eternamente… adivinhem? Até essa altura ninguém sabia da AIDS. Ninguém tinha dado um resultado de nada. Ninguém, nada em lugar nenhum, sabia ou podia me falar que meu pai era soro positivo. Ver ali alguém que te pegou no colo a vida inteira, frágil no teu colo, sangrando… Meu 1° instinto foi de ajudá-lo, depois fui pensar em sangue e etc. Ali, exatamente ali, eu podia ter selado meu destino. Por algum motivo não sou soro positivo. Talvez Deus, talvez a vida, não sei te falar…
Vivia anestesiada, sabe Pink Floyd e aquela música Comfortably Numb?
Sei que um belo dia minha mãe me liga e fala: “Seu pai não para de te chamar, vem correndo”. Ele chamava meu nome, que evito usar hoje por conta dessas lembranças “.. Alda .. Alda ..”. E impulsiva como sou, eu fui de carona subindo em carros e caminhões sem pensar se quer na minha segurança. Atravessei a ponte Rio – Niterói com uma velocidade absurda, eu sentia que seria a última vez. Chovia muito aquele dia e eu chorava tanto quanto a chuva que caia. Eu sabia que era a última vez, tenho feeling pro fim das coisas. Entrei no hospital com raios e trovões, vestia uma calça jeans rasgada nos dois joelhos, usava cabelo cumprido, um all-star velho e um casaco do Mickey com as mangas arrancadas. Entrei pingando no corredor, a cada passo ofegante fazia um eco absurdo que voltava pra mim de acordo com cada continência batida por cada Cabo, Tenente ou outra patente qualquer perto da porta do hospital. Ensopada por conta da chuva, entrei no quarto e vi a cama branca do hospital com a coberta xadrez vermelha na ponta dos seus pés, máquina de escrever em cima de uma mesinha perto do frigobar e meu pai deitado amarrado a cama pq se não ele arrancava todos os tubos. Ele olhava pro alto, sem rumo. Só lembro do reflexo da luz fluorescente do teto nos seus olhos verdes amendoados rajados.
Enquanto eu falava com ele tentando ajudar em algo, talvez fazer ele me reconhecer, não sei, ele chamava meu nome. Meu nome real, aquele que evito usar por conta dessas lembranças. Ele não sabia que já estava ali, ou sabia. Eu prometi que no dia seguinte levaria suas fotos antigas, que ia ler pra ele as histórias sobre Egito que me leu um dia, tentaria discutir sobre teorias de conspiração e conversaríamos em inglês como sempre fazíamos tomando café de madrugada ouvindo música clássica… Ai ele me contaria de quando viu Elvis, de quando viu Beatles, de quando quase foi pra guerra e de como ele adorava JFK e os filmes de Spielberg e Lucas.
Deixei o quarto e sentia que era a última vez. E essa foi a última vez que o vi. A última vez que senti seu cheiro e ele não tinha sanidade nem pra se despedir. Foi quando comecei a me entupir de café na esperança de ter ele mais perto e presente.
Naquela mesma noite soubemos que ele tinha morrido por conta da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida , SIDA , AIDS e que tanto eu como minha mãe corríamos riscos.
Perdi o chão , minha mãe surtou e eu me vi com 15 anos, como dizia Renato Russo “indo para o inferno outra vez”. Depois do enterro e dele não fazer mais parte da minha vida, me restava ir com minha mãe pra abrir um envelope maldito de três em três meses pra ver o resultado de exames e pensar positivo para não sermos Soro Positivo.
E isso se repetiu por dois anos até termos certeza que não tínhamos nada.
Tudo que queria era ter tido uma adolescência normal, uma vida normal.
Ter 15 anos e ter amigos, mas depois que souberam do que meu pai havia falecido muita gente se afastou. A Aeronáutica não podia deixar que soubessem seu óbito verdadeiro, pois podiam achar que um militar de alto escalão era homossexual. Sofri preconceito e era vista como a filha do drogado ou a filha de gay e por anos foi assim.
Ficamos só eu e minha mãe tentando sobreviver no meio desse mar de preconceito e no meio de uma saudade absurda que me consome até hoje e lembro como ele costumava tocar na gaita e no violão “The Times they are a Changing” , ainda tinha esperança que as coisas podiam vir a ser diferentes um dia.

Fiz meus 15 anos sem ele. Não dancei valsa como ele sempre ensaiava comigo e me pedia pra subir nos pés dele, mas consegui sorrir e ter esperança de ser feliz.
Muita gente acha que por termos meios de controlar a doença hoje, ela é uma doença normal, mas não é. É cruel. Tanto pra quem fica, como pra quem vai. É uma doença que sem querer, risca uma linha entre vários aspectos morais de nossa sociedade e por conta do contágio, limita o carinho que poderia ser dado a quem sofre com ela. Hoje temos a internet pra difundir e divulgar, mas mesmo assim ela ainda é uma doença com alta porcentagem de contágio nas classes mais pobres.
Depois de passar por tudo isso, ajudei o grupo de estudos da UFF a fazer campanhas de combate a AIDS, contando meu ponto de vista e minha história pra jovens e adolescentes. Ajudei muita gente, mas lógico que nunca é suficiente. Se nos juntarmos e se todo ano nos dedicarmos a ajudar de alguma forma, talvez consigamos fazer diferença. Sei que é se expor demais e eu raramente escreveria tanto assim sobre minha vida senão fosse algo realmente relevante!
Colabore, use preservativo, não compartilhe agulhas, cuidado onde você faz sua tatuagens e piercings e cuidado com quem você se envolve sexualmente.
A AIDS ainda é uma doença próxima e real, NÃO vacile e colabore!
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Foi nessa época que Bruce me “Abraçou” musicalmente





